Como fazer uma resenha?
Aprenda a fazer uma resenha crítica de obras culturais, destacando qualidades e problemas, e orientando o público leitor.
Gislaine Buosi

4 min read

8 years ago

Em dia com a Redação

RESENHA

O que é?

A resenha é uma abordagem crítica acerca de um objeto cultural: um livro, uma apresentação de balé, um exposição de arte, uma partida de futebol etc.

Abordar criticamente é opinar, é apresentar problemas e qualidades que o resenhista julgar importante destacar. Portanto, a resenha não precisa, necessariamente, apenas apontar falhas, mas também tecer elogios, pontos fortes da obra analisada. É muito comum jornais de grande circulação veicularem lançamento de livros, e, para tanto, o trabalho do resenhista é sempre oportuno.

Como fazer?

A boa resenha, além de fornecer uma síntese do assunto, apresenta o maior número de informações sobre o trabalho – fatores que, ao lado de uma abordagem crítica e de algumas relações intertextuais, darão ao leitor os requisitos mínimos para que ele se oriente – esse é o objetivo da resenha: orientar o público consumidor daquele objeto cultural.

A resenha é assinada e, geralmente, contém título; sugerimos que ela seja subdividida em quatro partes. Imaginemos a resenha de um livro:

  • Breve apresentação da obra e do autor;
  • Considerações acerca do enredoe da estrutura da obra - é preciso cuidado: o resenhista não pode ser um spoiler, quer dizer, não pode tirar do leitor a surpresa, principalmente, pelo desfecho do enredo; as resenhas não são resumos de obra;
  • Avaliação crítica da obra – a contextualização, a originalidade do trabalho, a aproximação do estilo do autor com o estilo de autores consagrados, outras impressões do resenhista;
  • Aconselhamento (ou não) do resenhista acerca daquela leitura – a que tipo de público-leitor é recomendada a leitura? Por quê?

Exemplo

A experiência como desenhista e dramaturgo muito contribuiu para a vivacidade com que Aluísio Azevedo narra O cortiço, ponto alto de sua obra e da própria ficção naturalista no Brasil. O romance, publicado em 1890, retrata como nenhum outro o processo que a ciência econômica chamou de “acumulação primitiva”.

É fácil resumir seu enredo: João Romão, um imigrante português, herda uma tasca nos arredores de Botafogo e, trabalhando como besta de carga, em poucos anos se transforma em respeitado capitalista. Desde o início, conta com a ajuda de Bertoleza, escrava de cujas economias se apossa sob o pretexto de comprar-lhe uma carta de alforria. Com a obstinação da avareza e uma desonestidade metódica, constrói casinhas que aluga a trabalhadores pobres, principalmente lavadeiras de roupa e operários de uma pedreira. À medida que se multiplicam seus moradores, a própria habitação coletiva ocupa o centro da narrativa, que novamente se volta para a história de Romão e Bertoleza ao preparar-se o desfecho.

O cortejo em que desfilam as dezenas de ocupantes da estalagem transforma o romance numa bem orquestrada trama de enredos secundários, entre os quais se destacam os referentes a Pombinha e ao triângulo amoroso composto por Jerônimo, Piedade e Rita Baiana. A agilidade da narrativa mantém, graças a expedientes muito bem aprendidos pelo autor na ficção romântica, um interesse constante do leitor pelo desenrolar de todos esses enredos. A variedade é a própria unidade do romance.

Inicialmente o narrador concede generoso espaço à caracterização do espaço e das personagens, e a “labutação” coletiva é descrita em sua profusão de sons e visualidade. A constante equiparação entre pessoas e animais transpõe a técnica do escritor francês Émile Zola, que no seu “romance experimental” carreava para a ficção um cientificismo por demais subserviente ao modelo médico buscado em Claude Bernard.

Mas Aluísio foi além da imitação desse inevitável modelo, tendo compreendido, como bem notou Antônio Arnoni Prado, o “espírito da revolução” concebida por Zola, adaptado criativamente à análise do fenômeno local. O capitalismo impiedoso ao qual acabamos chegando está bem prefigurado no conjunto de dramas que estrutura o romance, e sua maior expressão – mesmo considerada por alguns solução fácil e romanesca em excesso – é o suicídio de Bertoleza, contraposto à hipocrisia de uma sociedade que condecora de abolicionismo a vileza do avarento candidato a visconde. Pois, tudo estando à venda, por que não a nobreza?

Eloésio Paulo

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