Liberdade de expressão e Pós-verdade
A Unicamp mandou bem!
A Comvest, responsável pela elaboração dos vestibular da Unicamp, exige que o candidato elabore duas redações, de, no máximo, 22 linhas cada.
As redações serão, obrigatoriamente, avaliadas por duas bancas corretoras. A primeira avaliará três critérios: propósito, interlocução e gênero. A segunda avaliará a qualidade dos textos, no que se refere à gramática normativa, ao estilo, à coerência, à coesão e a concisão textuais. Recomenda-se o uso do padrão semiformal da Língua Portuguesa.
Para satisfazer às exigências da primeira banca, importante esclarecermos :
- Gênero: é o emprego correto da estrutura textual exigida pela situação proposta – o que se pretende é verificar se o aluno sabe, com segurança, diferençar (e redigir) um Artigo de Opinião de um Relatório, um Manifesto de uma Biografia etc.
- Interlocução: é a correta identificação dos interlocutores, ou seja, dos envolvidos naquela comunicação – quem escreve? e para quem escreve? Percebamos que, construídos os interlocutores, o estilo de escrita também se impõe.
- Propósito: é a finalidade para a qual o texto é redigido.
Liberdade e bom senso: mesmas medidas
Nordestinos; homossexuais; gordos; prostitutas; funkeiros; negros – nada escapa do escárnio de um sem-número de pessoas que, diariamente, destilam ódio, quer nas redes sociais, quer nos corredores das escolas, quer no meio da rua, ódio sempre nocivo a qualquer debate e apenas superável pelo bom senso – o que não é possível exigir de todos os homens, alguns, estúpidos por natureza.
É nesse sentido que se há de reconhecer o papel fundamental dos formadores de opinião, os quais se manifestam, na velocidade da luz, mídias afora. Sem dúvida, a maior parte dos cidadãos, verdadeira maria-vai-com-as-outras, deixa-se levar apenas por aquilo que está ao alcance dos olhos, sem qualquer depuração e, assim, engole a primeira barbárie, ainda que assinada por boçais de toda a ordem – e o fazem em nome da liberdade de expressão. Outra parte, não só vê, revê, contesta, aceita, recusa, pensa nos limites da liberdade de expressão e na intolerância, como também revida, em caso de manifestações ofensivas.
É inegável: a liberdade de expressão é tão limitada - ou ilimitada - quanto o bom senso. Democracia à parte, há, sim, o limite imposto pelo bom senso, que está ligado à razoabilidade, à ética, aos bons costumes, e pode ser aferido com a empatia. Nunca o jargão popular foi tão oportuno: não faça aos outros o que você não quer que seja feito a você – isso é bom senso, é polidez, é respeito. Contrário disso, a liberdade de expressão transforma-se em ferramenta que separa, que agride, que discrimina, o que significa retrocessos significativos no perfil daquele que ainda se conhece por animal racional.
Gislaine Buosi